Sinfonia de superação: educação musical faz a diferença para pessoas com necessidades especiais

A estudante Ana Beatriz Lopes, 19 anos, do segundo ano do ensino médio, entra no Instituto de Música Karashima, na quadra 313 da Asa Sul para a aula semanal de violão. Está acompanhada da prima. A jovem olha à sua volta como que reconhecendo o ambiente. A estudante de violão se ambientou bem às aulas de instrumento, o que tem feito toda a diferença para ela, diagnosticada com autismo. O professor de violão Diogo Caparelli, 29 anos, a cumprimenta com um sorriso. Os dois sobem um lance de escadas estreitas e entram em uma sala com persianas claras, cadeiras de braço e alguns instrumentos de percussão em prateleiras no canto. A aluna posiciona o violão e começa a tocar acordes. É um dos melhores dias da semana dela.

Por Agencia de Noticias Uniceub 20/12/2017 - 10:00 hs

Sinfonia de superação: educação musical faz a diferença para pessoas com necessidades especiais
Professor Diogo ensina as posições das mãos para a aluna Ana Beatriz Lopes: o melhor dia da semana

O cabelo castanho claro com uma larga franja cai sobre os óculos e sobre o violão. Às vezes, o cansaço toma conta. Bia para um pouquinho e “negocia” com o professor o recomeço. Balança a mão como que para descansar os músculos. O professor Diogo diz que ela está indo bem e a estudante toca mais alguns acordes. O professor também é psicólogo e isso ajuda muito na interação com a aluna. O violonista salienta que, ao dar as aulas da Bia, ele usa o método da psicologia comportamental aplicada que tem a recompensa como reforço positivo. Ele acrescenta que o desempenho da aluna surpreende. Mesmo quando o professor acha que ela não está entendendo suas explicações, ela faz tudo o que foi pedido.

A observação do professor confirma estudos que sugerem que o aparente distanciamento da realidade mascara a atenção e a sensibilidade que os autistas possuem, embora demonstrem dificuldade de comunicação. O diagnóstico do autismo se baseia na observação do comportamento da “tríade autista”: socialização, comunicação e comportamentos focalizados e repetitivos. Estudos indicam que a inclusão familiar é muito importante no trabalho com o autista para resultados satisfatórios nos trabalhos educacionais e terapêuticos por ser o primeiro grupo social do qual ela faz parte. A vida social é instrumento importante para o desenvolvimento do ser humano. No caso dos autistas, ela se torna indispensável.

 

A música desenvolve a criatividade, estimula o comportamento social e afetivo, diz Eunice Dias

Segundo a especialista na área de Educação Musical, Eunice Dias Rocha, 47 anos, as pesquisas mostram que há muitos benefícios na educação musical das crianças, jovens e adultos. A música desenvolve a criatividade, estimula o comportamento social e afetivo, colabora com o desenvolvimento afetivo, motor e cognitivo e ajuda na ativação da memória, além de atuar como ferramenta de auto expressão socializadora de grande importância.

De acordo com pesquisas da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM) relacionadas à música, o contato com instrumentos é uma ferramenta facilitadora para a comunicação com as pessoas autistas quando usada no lugar da fala, adaptando-se várias músicas-tema para cada conteúdo pedagógico estudado pelo aluno. Há relatos de autistas que, embora tivessem dificuldade em expressar suas ideias em palavras, ao cantar, essa dificuldade desapareceu. Esses relatos mostram que o uso da música instrumentaliza o desenvolvimento da oralidade, da comunicação e interação do autista no seu meio social. Assim como o caso da Bia, outros exemplos ocorrem na educação pública inclusiva. O fazer musical é considerado uma prática que aumenta a concentração e a disciplina, reduz o estresse, evita dores e motiva pessoas. Além disso, ela é uma atividade que ativa todas as áreas do cérebro.

Rampas

 

 

Ana diz que sempre foi difícil encontrar escolas que cuidassem das necessidades de Isabella

 

Foi com essa visão de estímulos e benefícios proporcionados pelo ensino musical que a professora de piano Ana Cândida Gobbi Arantes, 51 anos colocou sua filha Izabella Gobbi, hoje com 24 anos, estudante, para aprender flauta doce e piano na Escola de Música de Brasília. Izabella diz que nunca teve problema para aprender o conteúdo de teoria musical. O problema estava nas descidas e subidas das rampas das salas de concerto, por ser cadeirante. Sorridente, confidencia que guarda na memória boas recordações dos anos que passou no Centro de Educação Profissional da Escola de Música de Brasília (CEP/EMB) com a equipe de professores de música, seus colegas e sua professora de flauta, Sueli Miranda, que nunca enfatizou suas dificuldades, mas sim o fato dela trabalhar para conseguir vencê-las.

Ana Cândida narra que Izabella nasceu com mielomeningocele – má formação da coluna, que não se fechou completamente e que acontece nas primeiras semanas de gestação. As consequências dessa anomalia podem ser: pé torto, más formações ósseas com problemas nos joelhos, quadris e costelas, além da hidrocefalia e do uso de válvula. A mãe diz que Izabella tem o quadro completo e que aprender a tocar um instrumento nessa condição não seria uma tarefa fácil.

A mãe de Izabella explica que mais tarde os médicos descobriram que a menina sofria de DPAC (Distúrbio do Processamento Auditivo Central, que faz com que a pessoa escute os sons normalmente, mas tenha dificuldade em compreender as informações transmitidas) e de Discalculia (um tipo de transtorno de aprendizagem ao avaliar e raciocinar processos que envolvem habilidades cognitivas). Ana diz que sempre foi difícil encontrar escolas que cuidassem das necessidades de Isabella, por não haver atendimento especializado como o de hoje.

Ana Cândida explica que, devido à paraplegia, o tônus muscular de Izabella é deficiente porque o diafragma está sempre comprimido, mas diz que o fato dela tocar um instrumento de sopro e cantar em coral por muitos anos foi fundamental para a melhora da respiração e da articulação na fala da filha.

A mãe de Izabella afirma que houve uma sensível melhora dos aspectos físico, intelectual, mental e emocional da filha com o estudo da música e diz que “os estímulos que essas crianças precisam são estímulos específicos e determinantes da condição futura delas”. Izabella se formou em Flauta Doce pelo Centro de Educação Profissional da Escola de Música de Brasília (CEP/EMB). No repertório, sonatas e música brasileira. O arranjo para o chorinho de Pixinguinha teve o acompanhamento de duas flautas e violão.

 

Pesquisa e Música

 

 

O pesquisador estuda a capacidade de atenção plena, tendo consciência do seu próprio corpo e do ambiente à sua volta

Estudos têm sido realizados com o objetivo de descobrir quais benefícios o estudo da música produz em nossas vidas. Há vários resultados de pesquisas que dizem que a música ajuda na saúde do cérebro já que está associada à produção de dopamina, substância que causa sensação de prazer e bem-estar, diz Samuel Silva, 46 anos, mestre em Canto pela UFG e em Educação Musical pela Universidade de Toronto, Canadá.

O especialista relata que o fenômeno chamado entrainment é uma espécie de sincronização rítmica que pode ocorrer entre duas ou mais pessoas. No caso de um coral, os pulsos dos cantores entram em sincronia, como se fosse um ritmo cardíaco em coletivo. Isso pode ter influência no estado de espírito das pessoas para melhor.

Samuel Silva acrescenta que a área acadêmica estuda com muito interesse o estado de mindfulness, que é a capacidade de atenção plena, tendo consciência do seu próprio corpo e do ambiente à sua volta. Isso ocorre quando tocamos ou cantamos. A psicologia e medicina comparam esse estado de consciência à meditação. Há estudos que falam de ajuda na cura de várias doenças.

Relatos de pesquisas salientam que o canto é usado para o tratamento da gagueira, do mal de Parkinson, de danos ao cérebro e do autismo. A ação da música pode formar novas ligações entre neurônios, o que melhora o funcionamento geral do cérebro.

Memória

 

 

Edênio estuda viola caipira de uma forma difente

 

 

 

Edênio de Paula Santos Ribeiro, 52 anos, tem baixa visão. Nasceu com problema de retina no olho esquerdo porque a mãe teve toxoplasmose na gravidez. Desde menino, tinha estrabismo e alto grau de miopia. Aos 18 anos, teve descolamento de retina e seu problema foi piorando a cada dia que passava. O estudante de viola caipira diz que tocava em confraternizações e dava aulas práticas de música. “Agora é que estou me profissionalizando e estou encantado”, diz Edênio. Há anos, tocava seu repertório em barzinhos e dava aulas práticas de música porque sabia tocar alguns acordes. Fazia um trabalho simples e prazeroso, pois tinha facilidade em tocar uma grande variedade de peças populares. Tânia, a esposa, foi quem o inscreveu para a prova de iniciados da Escola de Música de Brasília. Edênio diz que passou para o curso de viola caipira “no susto”, pois na semana da prova teve uma grave hemorragia no olho e não enxergava nada. Mesmo com essa dificuldade, resolveu enfrentar a prova teórica porque queria aprender mais sobre a escrita musical.

Para a aula de teoria, a professora da Escola de Música da Sala de Recursos elabora a leitura rítmica desenhando cartões, com as notas e pausas. Edênio aprendeu muito com esse sistema porque não precisa mais imaginar os signos musicais. Como ele viu os símbolos nos cartões, as figuras das notas e das pausas vêm à sua mente. O estudante afirma que seu raciocínio e memória melhoraram muito desde o mês de agosto, data em que entrou na escola. Há dez anos que não tocava com frequência e sentia que a memória já não era a mesma de antes. Agora, com uma semana ou aproximadamente 15 dias, já consegue decorar a melodia, os acordes e a letra da composição.

A aula com o professor Roberto Correia é realizada com partitura escrita para viola. Ele faz as notas musicais e a tablatura (método usado para transcrever música para iniciantes tocada em instrumento de cordas). Edênio achou um jeito de estudar fotografando a partitura, jogando a foto no pen drive e colocando como imagem na tela da TV. Assim, pode enxergar a partitura em um tamanho grande. Baixou a apostila do professor no celular e vai decorando e tocando. Enxerga a partitura se estiver bem perto.

Braille

Sávio Trindade Lobato, 21 anos, nasceu com glaucoma congênito e é cego. Fez prova para a Escola de Música de Brasília e cursa violão popular. É um exemplo de quem deu certo na música inclusiva, já que vive dela profissionalmente, apesar de muito jovem. Sávio recorda que, na aula de violão, usa muito o tato e a audição. Como a execução do instrumento fica comprometida, tudo o que é dado pelo professor tem que ser mais detalhado. Ela diz que teve sorte de ter um professor que tem paciência e interesse em que o deficiente visual aprenda. Para o músico, a execução do violão na prática é simples: aprende as posições, decora todas elas e toca.

 

 

 

Há três anos, Clodomir estuda flauta transversal na Escola de Música e sempre quis tocar também o saxofone

 

 

 

A história de Clodomir José Gallindo Moraes, 60 anos, é diferente. Aos 33 anos, ficou com cegueira, motivada por um acidente automobilístico. Trabalhava como técnico administrativo no Departamento de Finanças do GEIPOT e ganhava em torno de 15 salários mínimos. Havia perdido seu emprego dois anos antes de perder a visão, pois o órgão havia sido extinto. Com muita dificuldade, conseguiu manter o vínculo com o INSS, se aposentando com pouco mais de três salários mínimos. Há três anos, estuda flauta transversal na Escola de Música de Brasília e sempre quis tocar flauta e saxofone. Ele explica que já havia estudado na Escola de Música, mas havia largado o curso, pois não via necessidade em aprender a musicografia Braille para tocar um instrumento. Não se adaptou ao aprendizado do Braille à época por ter perdido a visão na idade adulta.

Depois de alguns anos decidiu voltar a estudar música e diz que, só então, foi entender a importância da musicografia Braille para a leitura da partitura e para tocar o instrumento. Afirma que sem essa ferramenta de ensino fica difícil estudar o instrumento. Clodomir diz que a Escola de Música de Brasília ainda está em falta com o público com deficiência. “O ensino teria que ser diferente: com capacitação, com adaptação e com mais tranquilidade”, de acordo com o aluno.

Educação Inclusiva

A lei brasileira prevê o acesso universal a um ensino de qualidade, sem discriminação de nenhum indivíduo em relação àqueles que o sistema classifica como pessoas com deficiência. Os direitos estabelecidos para essas pessoas estão no parágrafo 3º do artigo 5º da Constituição Federal Brasileira atualmente vigente. Há ainda a Convenção da ONU que discorre sobre esses direitos – direitos incorporados à legislação brasileira em 2008.

A educação musical inclusiva tem sido enfatizada a partir da aprovação da legislação que torna obrigatório o ensino de Música nas escolas brasileiras. A Lei 11.769/2008 é a que trata do ensino da música na Educação Básica. A Lei 13.278, de maio de 2016, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), inclui a música como parte do componente curricular “Arte” nos diversos níveis da Educação Básica, juntamente com as artes visuais, dança e teatro.

Foram homologadas ainda em 2016, além da Lei 13.278, as Diretrizes Nacionais para o pleno funcionamento do ensino de Música na Educação Básica. De acordo com essas diretrizes, a Música é entendida como um direito humano constituído como prática curricular que deve ser estendida a todos os estudantes, não se entendendo a música com um papel secundário no currículo escolar, mas integrada ao projeto político-pedagógico das escolas.

Em Brasília existem apenas duas escolas que incluem os alunos com deficiência com o objetivo de profissionalizá-los. Uma delas é a Escola de Música de Brasília, localizada na L2 Sul, Quadra 602, que abre inscrições para teste de inicialização em música e sorteio duas vezes ao ano, mas que faz algumas exigências para a entrada do aluno com deficiência. A outra que disponibiliza vagas diz respeito ao Projeto de Extensão da UnB – Música para Crianças (MPC).

Por Claudia Sigilião, da Revista Esquina

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira