Imprudência no trânsito e tristeza: acidente destrói família no Gama

Ao sair de casa após ouvir um estrondo, a estudante Vanessa Quintino viu, pela cortina de poeira, uma criança de dois anos desorientada cambaleando rumo a uma das principais avenidas do Gama. Com o menino acolhido entre os braços, ela se deparou com a cena que mais tarde seria compreendida: um carro desgovernado conduzido por um adolescente embriagado havia capotado sobre cinco pessoas da mesma família, matando duas filhas e um bebê.

Foto: Myke Sena

“O menino só ficava repetindo ‘carro’, como se quisesse contar o que tinha acontecido”, lembra Vanessa, de 20 anos, que mora em frente ao local do acidente. Apenas o menino e o avô, Mansungo, 43 anos, sobreviveram ao impacto e foram levados ao hospital regional da cidade. Rute Ester de Jesus Carvalho, 22, Gabriela de Jesus Carvalho, 19, e uma criança de seis meses morreram na hora.

 

 Vanessa Quintino (Blusa Rosa) e Elenice Quintino /Foto: Myke Sena
Vanessa Quintino (Blusa Rosa) e Elenice Quintino /Foto: Myke Sena

 

“Quando cheguei, uma das mulheres ainda respirava. Soubemos que o senhor estava bem porque nos respondeu”, contou a testemunha.
De origem humilde, a família mora em uma casa simples na Vila Roriz. Eles andavam pelo canteiro central da avenida quando o carro desgovernado os atingiu. O veículo, um Hyundai Azera, era conduzido por um adolescente embriagado de 17 anos. O teste do etilômetro apontou 0,53 miligramas por litro de sangue – acima do limite de 0,3 previsto no Código Brasileiro de Trânsito. O carro está no nome da mãe do menor.

Segundo informações do 2º tenente Klênio, do 9º Batalhão de Polícia Militar, o adolescente perdeu o controle do veículo em uma curva, que tem limite de velocidade de 50 km/h, bateu e derrubou um poste e capotou atingindo a família, que andava em uma pista de caminhada no canteiro central da avenida. Do poste de energia até o local onde os corpos ficaram estendidos, a distância é de mais de cem metros. No chão, o carrinho de bebê ficou tombado. A vítima de seis meses de vida foi encontrada embaixo do automóvel.

  • Segundo testemunhas, o adolescente fazia cavalo de pau durante a madrugada de sábado. Também seria comum ele pegar o carro dos pais.
  • De acordo com a Administração Regional do Gama, o enterro social deve ser acionado para sepultar as vítimas.
  • Nesses casos, o governo arca com despesas de caixão e traslado de corpo, além de conceder auxílio de R$ 415 à família dos mortos.

Sem intenção

Após o acidente, adolescente ainda tentou fugir a pé. Percorreu cerca de dois quilômetros rumo às chácaras da região. De acordo com o 2º tenente, os moradores ajudaram a capturá-lo. Com passagens pela polícia por roubo a pedestre, resistência e porte de arma e de entorpecentes, o menor foi levado à Delegacia da Criança e do Adolescente na Asa Norte.

O advogado Eduardo Alves acompanhou o jovem na delegacia, acionado pelo pai que telefonou e contou sobre o ocorrido gaguejando. Segundo a Polícia Civil, ele responderá por infrações análogas aos crimes de atropelamento de pedestre e homicídio culposo – quando não há intenção de matar – na direção de veículo automotor.

Segundo a Secretaria da Criança, o adolescente está no Núcleo de Atendimento Integrado (NAI), no Complexo Penitenciário da Papuda. Deve ser definida sua internação provisória até a tarde de hoje. Se ocorrer, ele ficará ali por até 45 dias. Após o período, pode ser sentenciado de seis meses a três anos, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Perigo é constante, diz população

Moradores do Gama esperam que este acidente seja a gota d’água para a implementação de redutores de velocidade. Segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran), foram registrados dois acidentes com morte na cidade até o mês de maio. Os moradores, porém, dizem que colisões e atropelamentos são constantes pela falta de respeito à velocidade das vias.

“Moro há dez anos aqui e posso dizer que temos muitos acidentes. É muito perigoso”, relata o motorista Wellgton Souza, 35 anos. “Precisamos ter ferramentas que forcem a redução de velocidade”, pede. Para ele, o permitido por lei é razoável, mas desrespeitado. “É tanta freada brusca, tanto acidente. As pessoas chegam fácil a 100 km/h”.

O local do acidente fica após um balão e uma curva em “S”. Alguns metros à frente, há uma faixa de pedestres. “A faixa não resolve, precisa ter algum redutor mais eficiente”, opina João Paulo Moura, autônomo de 20 anos. O fato de um adolescente embriagado dirigir também inflama os ânimos: “É revoltante”, repetiam os curiosos.